RAÍZES

Terra preparada, semente plantada, é hora de fincar nossas raízes em terrenos férteis. A ideia das Raízes do FRUTO é apontar alguns territórios onde queremos firmar ideias, ações, projetos e soluções. São pontos indicados pelos participantes dos Diálogos do Alimento sobre Educação, Desperdício e Políticas Públicas e reunidos com primor pelos mediadores Cristal Muniz (Um Ano Sem Lixo), Érica Araium (Diálogos Comestíveis), Luiz Américo Camargo (consultor gastronômico).

As Raízes são o nosso lugar de atuação em 2019.

É onde queremos ser e estar neste ano.

Vamos juntos?

PARTICIPANTES DOS DIÁLOGOS DO ALIMENTO

DESPERDÍCIO
por Cristal Muniz

Estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são perdidos no planeta a cada ano, cerca de 30% do total produzido. Essa comida seria suficiente para acabar com a fome no mundo. O desperdício é tema da maior importância quando temos um cenário de escassez de alimentos e uma população que só faz crescer.

A comida tem de vir de mais perto

Quanto mais longe o produtor está, mais elos precisam existir na cadeia e mais desperdício é gerado. Produzir e consumir localmente gera menos perda de produção. Integração da cadeia produtiva.

Precisamos comer frutas, legumes e vegetais imperfeitos

Se as pessoas não são iguais, por que os tomates precisam ser? Como consumidores precisamos parar de uniformizar as plantas como se elas não fossem organismos vivos.

Vamos começar a revolução dentro de casa

Precisamos parar de gerar desperdício selecionando a melhor parte do vegetal para comer e usar a imaginação para comer cascas, talos e folhas. Olhar de outra forma para os alimentos. Usar a criatividade. Conscientização.

Educar para repensar o alimento

O trabalho educativo é muito importante. Todos têm de saber aproveitar os alimentos de forma integral, a forma mais adequada de conservação e evitar desperdício. Hábito só se muda com educação. Temos de repensar o alimento e sensibilizar as pessoas para isso.

Atuar em parceria com órgãos públicos

É preciso mudar a lente. Ver sem medo que é preciso ter uma atuação política, ao lado de órgãos públicos. É necessário um maior controle nos centros de abastecimento, informação e educação sobre hortas urbanas, restaurantes populares, compostagem e fortalecer conexões, por exemplo, como o Ceasa e projetos de refeições populares.

EDUCAÇÃO
por Érica Araium

Pesquisar, coproduzir, inquietar, dialogar, coparticipar. Cinco verbos ativos de demandas prementes a serem consideradas quando a pauta “educação alimentar” norteia o que se entende por “consumo e produção de alimentos” nos âmbitos familiar, educacional e escolar. Podemos delinear novas paisagens – mais coloridas, biodiversas, sustentáveis e, nutritivas – se considerada a valorização de todos os atores da gastronomia. É preciso que haja empatia.

Seja um estudante/aprendiz ativo. Compete a cada indivíduo o pesquisar sobre o que come

Compreender o que serve como alimento, insumo e ingrediente é algo anterior à noção dos usos gastronômicos. O repertório se constrói mais de forma empírica que chancelada pelo domínio técnico. O plantio, no seio familiar, de pequenas hortas, pode servir ao diálogo em torno da mesa, à resolução dos gostos, ao elaborar de demandas que definam a lista de compras e a correta destinação do que se entende por “resíduo”. Quem tem fome, tem pressa. Tem gente com fome. E, se tem gente com fome, dê de comer. A noção do que alimenta e nutre é mesma noção do que sustenta – sustentar é coproduzir. Entender-se parte da cadeia produtiva. Neoconsumir. Entender, definitivamente, que comer é um ato político.

Atue como o monitor dos anseios do comer. Agir como ativista é valorizar os atores da cadeia de alimentos

Não importa a classe social, mas o senso de pertença de mundo. Nele, há uma plêiade de responsabilidades a serem ativadas em conjunto. Não podemos nos ausentar como consumidores e, sempre que houver possibilidade, agir em prol de escolhas mais sustentáveis: preferir alimentos locais, rastreá-los, indagar sobre a maneira como foram produzidos, por que mãos e em que condições de trabalho. É preciso ser justo com toda a cadeia do alimento e digno do alimento produzido.

Pleiteie uma chance de educar ao exercitar a empatia. Perguntar, indagar, sobre tudo que diz respeito ao que comemos

Compreender por que certas informações e discursos circulam e outras não, entender os silenciamentos e os dizeres de cada sujeito histórico a fim de compreender a maneira como comemos, culturalmente, é imperativo. É preciso participar da construção das narrativas do alimento, ressignificá-las e tornar a contá-las com propriedade. Com a noção de que contam todas vozes de cada indivíduo/ cidadão – seja ele produtor, educador, industriário, ativista, político, ou produtor de conteúdos. É preciso ouvir muito antes de estabelecer-se qualquer diálogo. É preciso criar uma rede de significação que esteie as memórias do comer. É preciso conhecer o alimento para que nos conectemos a ele.

O educador é capaz de dialogar com todos os demais atores que almejam educar o gosto

Partirá deles o ressignificar de memórias. Uma merendeira ou funcionária de escola pode educar tanto quanto um “professor” (em seu sentido estrito, apenas para situar atribuições normativas). Somos todos educadores, por assim dizer, quando nos propomos a explicar a outrem o que pode mobilizar o comer. Inclusive mudar as fronteiras que limitam as diferenças de coexistirem. É da partilha de usos e aplicações de alimentos em seus contextos tantos – alguns de resistência outros de ocupação, muitos mais de fome, uns tantos outros de excessos de calorias e vazios nutricionais – que se constrói, coletivamente, um comer global que não cabe em padrões e/ou modelos de distribuição tão desiguais. É preciso comunicar para educar. É preciso contar as histórias do alimento e torná-las acessíveis para que outros as contem.

POLÍTICAS PÚBLICAS
por Luiz Américo Camargo

Quem atua com alimentação sabe que tudo precisa de uma regulamentação. A quantidade de agrotóxicos utilizada na produção de alimentos, a permissão ou não de produção transgênica, a regulamentação para a produção e comercialização de produtos regionais artesanais, a liberação de produtos nativos de características peculiares, como o mel de abelhas melíponas. Tudo passa por uma regulamentação, por uma lei, pela validação de diferentes esferas, seja municipal, estadual ou federal. É preciso aprofundar as informações que temos a respeito de políticas públicas para saber como atuar em defesa de alguns temas.

Recorrer mais ativamente ao Ministério Público e à imprensa

O Ministério Público é um agente de pressão política e jurídica, para o qual podem ser encaminhadas muitas demandas. Mas é importante que se construa uma agenda de trabalho, um contato permanente, para que as ações tenham começo, meio e fim. Manter a imprensa sempre bem municiada de informações, para ser outro agente de pressão junto ao poder público.

Incentivar a união em torno do tema orgânicos, congregando pessoas, iniciativas e institutos

A partir da conexão de vários atores já existentes, e já engajados no assunto, pensar numa instituição nacional para defender os orgânicos. Um trabalho colaborativo, em rede, que possa lutar no campo político, mas principalmente impactar o cotidiano, a vida real das pessoas. E, a partir daí, pensar num ministério – ou, pelo menos, numa secretaria com poderes do tipo – exclusivamente para a alimentação.

Comunicar e educar melhor, para criar uma sociedade com mais poder de escolha

Que o FRUTO mapeie pessoas, ONGs, empresas, comunidades, escolas, que tenham interesse em informar melhor a sociedade. Que, a partir dessa aproximação, crie-se um sistema de comunicação muito direto, que desmistifique e esclareça pontos sobre agricultura familiar, orgânicos, agronegócio. Atuar também na alimentação escolar, porque ela reforça a agricultura familiar, a cultura local, o próprio bioma. Recorrer ao MP para que essa mensagem tenha o direito de ser veiculada, por ter relação com educação e utilidade pública.

Debater não apenas o agrotóxico, mas todo o modelo agrícola

Usar o tema dos agrotóxicos como oportunidade para debater e informar melhor sobre o modelo de agricultura, de um modo mais geral, unindo pessoas de vários segmentos profissionais. Alertar para os riscos que vêm correndo vários atores ligados à agricultura agroecológica, com as crescentes ameaças a ambientalistas, líderes e terras indígenas e quilombolas, agricultores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Criar grupos e ações de pressão para a volta do Consea, Conselho de Segurança Alimentar.

Buscar empatia, informação e aproximação de quem produz o alimento

Começar pelo micro, pelo local, pelo municipal. Promover visitas a produtores como os de Parelheiros e de Campo Limpo, na zona sul de São Paulo. Visitar comunidades como as dos quilombolas do Vale do Ribeira, ou os assentamentos do MST, hoje entre os principais produtores agroecológicos. Aproximar para entender e desmistificar.